O afeto que se encerra

Celso Lungaretti (*)

Como fica óbvio pelo meu sobrenome, sou de ascendência italiana, por parte do avô paterno e do bisavô materno. Mas, os dois ramos já haviam se dissociado desse passado quando eu começava a entender as coisas.

Uma lembrança remota da minha meninice foi a do meu pai e meu tio comentando a morte de um ancestral famoso: Angelo Lungaretti. Circulava de mão em mão a notícia publicada no jornal italiano Corrieri della Sera.

Atraído pelas promessas dos fazendeiros brasileiros, que mandavam recrutadores à Itália oferecendo viagem gratuita, Angelo veio com a família trabalhar na lavoura cafeeira.

O filho do fazendeiro assediou a filha de Angelo. Houve discussão inflamada e Angelo se viu ameaçado pelo fazendeiro e seus capangas.

Tinha, por precaução, apanhado uma velha e enferrujada garrucha. Fez um disparo ao acaso e a bala foi alojar-se logo no peito do fazendeiro, matando-o instantaneamente.

O dito cujo era irmão do presidente Campos Sales, que cogitou até a instauração da pena de morte, com efeito retroativo, para que pudesse ser aplicada nesse caso; foi dissuadido pela Inglaterra.

O governo italiano, supondo tratar-se de mais um anarquista, não deu a mínima. Angelo foi, entretanto, fortemente apoiado pela colônia.

Finalmente, depois de uns 20 anos, foi libertado e voltou à Itália, onde teve velhice tranqüila e morreu.

Mas, esta história familiar não me interessou muito na época. Só fui lhe dar valor muito tempo depois, em função do rumo que minha própria vida tomou.

O que me predispôs mesmo a valorizar meu sangue latino foram os livros do primeiro autor que me fez a cabeça: Monteiro Lobato, com sua verdadeira veneração pelo legado greco-romano.

Graças a ele, passei a identificar a Itália com o humanismo, o equilíbrio, a sensatez. Não com o fascismo que só a derrota na II Guerra Mundial conseguiu apear do poder.

E foi ainda a arte reforçou minha admiração pela Itália: desde os fundamentais escritores Dante Alighieri, Alberto Moravia e Italo Calvino até os maravilhosos filmes de Federico Fellini, Ettore Scola, Mario Monicelli e tantos outros.

Sem nunca ter podido conhecer a pátria dos meus antepassados, eu a imaginava como um contraponto ao sôfrego e calculista american way of life: uma terra aprazível, com um povo compassivo, que sabia viver. Pensava em cada italiano como um Marcello Mastroianni e em cada italiana como uma Sofia Loren.

E, embora estivesse ciente dos excessos com que foram combatidos os brigadistas na década de 1980, não os associara ao povo italiano. Para mim, a culpa toda era do PCI, que aliara-se ao partido da burguesia facinorosa (a Democracia-Cristã) contra os verdadeiros revolucionários, tangendo-os ao desespero e a atitudes insensatas como a execução de Aldo Moro.

O Caso Battisti desfez rudemente minhas ilusões: percebi que o italiano comum, a exemplo do que ocorria durante o fascismo, continua se deixando tanger por lideranças demagógicas e rancorosas.

Tanto como os brasileiros foram levados pela mídia a quase trucidarem os donos da escola-base, os italianos aderiram insensivelmente à caça às bruxas desencadeada por Berlusconi. Que decepção!

Então, já não me surpreendeu ler nos jornais de hoje que a Câmara dos Deputados da Itália aprovou as novas medidas de combate à imigração ilegal propostas pelo governo Berlusconi, incluindo pesada multa a clandestinos e prisão para quem os hospedar.

As restrições acrescentadas incluem o aumento de dois para seis meses no tempo de detenção de imigrantes ilegais e a criação das rondas locais de cidadãos comuns (esquadrões de delatores voluntários) para denunciar ameaças à segurança.

É essa Itália mesquinha e intolerante que persegue Battisti, para exibir sua cabeça como troféu, marcando o reencontro com aquele passado em que os trens chegavam sempre no horário, a autoridade era sagrada e o Duce zelava por todos.

Mussolini vive. Dante morreu.

* Jornalista e escritor, mantém os blogs
http://naufrago-da-utopia.blogspot.com/
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