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Carta enviada da prisãoCaros companheiros/as, é minha intenção inicial agradecer a vocês a ajuda dispensada e o interesse a mim dirigido durante todo esse tempo de segregação que já perduram 15 meses. Tentarei escrever-lhe de forma direta e aproveitando o meu falho português, despretensiosa também. Enfim, sem filtros cerebrais, É Assim que preciso me sentir quando escrevo a leitores "imaginários" deixar as palavras sair do peito (deformação profissional): faço-me então pano de chão para levantar-me pouco a pouco à altura do coração. Justamente por tê-los/as como companheir@s é que ouso dar-me o direito de escrever-lhe assim. O que pretendo fazer agora, seguindo o fio da intenção supracitada, é um balancete desse 15 meses de reclusão, bem como tornar-los conhecedores de minha situação jurídica, caso já não sejam, e de forma concomitante, solicitar mais uma vez vossa ajuda, caso seja possível, no que concerne ao plano que, a parte, será melhor detalhado e que, de todo modo, submeto a vossa experiência. Enfim, como sabem, dia 18/01/08 realizou-se meu depoimento em frente de um juiz federal. Aparentemente, tudo sucedeu-se da melhor maneira possível, até com o promotor colocando-se de meu lado. Eu, a defesa e todos os mais próximos não tivemos dúvidas sobre uma inevitável influência positiva sobre a Procuradoria Geral da República, que deveria em seguida pronunciar-se a respeito. Qual não foi nossa surpresa quando um mês depois o indefectível Procurador se pronunciou a favor de minha extradição, com um parecer até certo ponto desrespeitoso à ótima defesa apresentada. Ele, o fiel da balança, sequer se deu ao trabalho de fundamentar e substanciar adequadamente o seu escabroso parecer. Foi impressão da defesa e de outr@s que tal parecer caiu como uma bomba no âmbito do STF. Previsível foi também a festa mediática à qual se entregaram os urubus europeus e alguns brasileiros. Outrossim, lhe informo que os meus advogados reenviaram o processo a PGR para uma segunda avaliação e posterior retorno ao STF. Porém daqui em frente vamos precisar de um enorme trabalho jurídico e de sensibilização do mundo político e cultural brasileiro. Eis a razão desta: eu agora preciso de vocês mais do que nunca, nem como de todos aqueles que lhe pareçam sensíveis a minha causa. Preciso de apoio de todas/os os amigos/as e companheiros/as a quem cada um de vocês tem acesso. Pois a impressão (e não é só uma impressão) que tenho é que caí mais uma vez em um jogo político sujo e cujas regras e verdadeiros objetivos desconheço. Como bem sabem, muitas batalhas resultam em derrota ou vitória justamente em face da decisão da hora ou não de agir. Bem verdade lhe digo: é hora de agir! Começaremos corrigindo o erro que as companheiras e companheiros franceses perpetuaram com tanta obstinação, mesmo que tenha ocorrido motivado pelas melhores intenções: separar a todo custo o homem político, o escritor militante do processo estritamente jurídico. O mesmo que aconteceu na França em 2004 (ao final me trocaram por um contrato de trem bala entre as cidades de Lion e Turin) parece-me repetir-se aqui agora: enquanto a gente ficava ocupada com empecilhos jurídicos para evitar a extradição - já negada 14 anos antes! - os adversários já tinham ocupado o terreno político para assim pressionar o aparelho judiciário. Ora, sendo sabedor da boa defesa apresentada pelo profissionalismo do corpo jurídico que em advoga em minha defesa, permito-me nutrir reais chances de vitória jurídica com a continuidade da tramitação do processo. Porém, não posso me dar ao luxo de desconsiderar a forte influência italo-francesa aqui no Brasil. Bem como o seu grande poder de persuasão com todo o suficiente tempo que tiveram (2,6 anos de monitoramento em território brasileiro!) para arquitetar o forte fraudulento pedido de extradição. Daí, se faz necessário e imprescindível a minha intervenção nesse processo articulando todas as possíveis relações para que confluam em uma inteligente sensibilização do povo cultural e político e para que estes intercedam de alguma forma perante as autoridades, intermediado por pessoas como vocês ou a todos aqueles que lhe pareçam susceptíveis ao meu apoio. Quero, car@s amig@s, dar voz à minha consciência, porque este é meu papel desde sempre, esta é a minha índole, este é o processo político não só meu mas também dos anos 70 na Itália e esta é a minha única oportunidade de tirar meu nome da lixeira onde os obscurantistas de sempre querem colocá-lo. E, além de tudo, ninguém afora de mim é melhor do que eu pra sabe da gravidade da mentira histórica que está que está à origem de meus problemas atuais. Existem centenas de refugiados/as italianos/as dos anos 70 no mundo, inclusive no Brasil, porque então eu? Porque se não é para me calar a boca, tirar das bibliotecas meus livros que denunciam a horrorosa verdade daqueles anos? Não obstante a esses 15 meses de constrangimentos e d'espoliação - veja-se recluso em uma custódia de "delegacia", privado dos benefícios mínimos que mantém o equilíbrio psico-físico e que são de direito de qualquer preso - fico ainda em boas condições para avaliar a situação tal e qual se apresenta. Batalhas serão travadas e quero tomas parte ativa nesta luta política. Com o intuito que a verdade será enfim revelada sobre meu percurso político entre dois séculos. Porque a verdade, car@s companheir@s, é como aquela gota de chuva correndo ao longo de um fio. Só temos uma certeza: ela, uma hora, cairá. Eu estou precisando de ajuda. Levando em conta vossa particular colocação política e social, solicito que intercedam e sensibilizem a todos/as que achar relevantes no âmbito político-cultural e no movimento social me geral. Acho que não precisa, - ou sim? - lembrar ao Lula, agora guia do povo brasileiro, que nós lutamos do mesmo lado e na mesma época e que só por fatalidade, talvez também por competência, acabamos por tomar rumos tão diferentes. Poderia o presidente de hoje me entregar à morte certa que me espera nas celas da Itália (não se pode esquecer que eu fui escabrosa e mentirosamente condenado por assassinato de policiais, chefes de penitenciaria e milicianos; nesse sentido a Itália não é diferente do Brasil; me deixariam vivo?). Pois, este, onde ainda uma centena de pres@s políticos ficam sepultados/as vivos/as há mais de 35 anos e que agora estão pedindo a restauração da pena de morte, por desespero? Será que serei injustiçado pelo mesmo PT que eu como milhares de companheir@s do mundo aplaudimos quando da sua chegada ao poder através da eleição do Lula? Não me permito sequer imaginar que o povo brasileiro aceitará essa infame maquinação dos governos de direita Franco-Italianos. Este último integrado de novo pelos fascistas de mussoliniana memória de "Allianza Nazionale" e que querem retirar o sujeito político que sou do contexto histórico que motivou este VINGATIVO pedido de extradição. É a esse povo que agora peço: não deixem que me furtem a minha identidade política e cultural adquirida à custo de tanto sacrifício, não só de minha parte mas também de todos aqueles que ao longo de minha vida acreditaram em mim. Eu sempre assumi, sem falhas, as minhas responsabilidades políticas. Vide ontem - anos 70 - afastando-me fiel até as últimas conseqüências a meus ideais de justiça social, sendo as mesmas que me trouxeram ao Brasil, com a nutrição de esperança de juntar-me um dia a minha família e aqui morar. Assumindo enfim, pela primeira vez com todas as garantias constitucionais, minhas responsabilidades processuais frente à justiça brasileira. Eu sei, amig@s querid@s, que a coerência se empurrada ao extremo não é forçosamente revolucionária. Mas será que também ser conseqüente virou um atributo anti-social? Um abraço, Cesare Battisti |