Unidos/as pelo destino

Este artigo foi feito a partir das fontes citadas e, sobretudo, a partir da experiência das visitas feitas a Césare Battisti, nas conversas que temos tido. Cesare está preso na Polícia Federal de Brasília, com solicitação italiana para que seja extraditado do Brasil à Itália, onde já foi condenado - em um julgamento arbitrário, cheio de irregularidades e no qual não participou - à prisão perpétua. Caso a justiça brasileira acate o pedido da justiça italia, Cesare apodrecerá nas celas do país, em esquecimento - como já afirmou o ex-minitro da justiça italiano Roberto Castelli.

Preso há cerca de 10 meses por um crime que não cometeu e pelo qual foi julgado à revelia, Cesare Battisti já tem motivos de sobra para estar em liberdade, com seu processo de extradição cancelado e sua nacionalidade Brasileira garantida, como deseja. Todavia não é isso que tem ocorrido, e a situação é justamente inversa: desde sua detenção até o momento foram torturas, privações, perseguições e uma série de arbitrariedades que remontam tempos sombrios que já deveriam há muito estar superados.

Desde sua prisão, Cesare Battisti tem sido alvo de violência carcerária, em seus diferentes planos: inicialmente preso por agentes franco-brasileiros no Rio de Janeiro e levado para a PAPUDA - presídio comum do Distrito Federal(Brasília) - foi vítima de tortura física de agentes carcerários. Segundo informado na revista Piauí em matéria sobre o caso, Battisti afirma que as hostilidades de policiais a ele partiram de agressões verbais do tipo "Os carcereiros me gritavam: "Aqui não é a Itália, seu assassino de policiais, aqui você vai se foder, seu filho da puta!"" até agressões físicas efetivas, como joelhadas, chutes e cuspes.

Após esse episódio de tortura física, Cesare fez denúncias ao Supremo Tribunal Federal e foi encaminhado ao cárcere da Polícia Federal em Brasília. Apesar de que na Polícia Federal não sofra violências físicas, as condições do local são bastante precárias: celas superlotadas onde detentos revezam-se pra dormir; visitas só uma vez por semana, com máximo de duas pessoas conversando durante uma hora por meio de telefones velhos e um vidro separando detentos de visitantes; só se pode entregar, por semana, quatro frutas, quatro litros de suco, um quilo de biscoitos, cigarros, produtos de higiene, 5 folhas(!!) e um refil de caneta; livros, somente 2 por semana; cartas, sempre apreendidas, lidas e relidas antes de serem entregues, em um processo que dura muitos dias - quando não ocorre delas serem devolvidas antes de entregues.

Já não bastasse essas condições normais a todos os detentos, Cesare parece ter um tratamento especial: a imagem criada sobre ele na carceragem é a de um terrorista internacional sanguinário e meticuloso, de uma pessoa com quem não se pode ter o mínimo de desatenção, que pode estar tramando algo a qualquer momento. É a tradicional imagem criada sobre os presos políticos, imagem despolitizada que coloca-os sob a condição de criminosos piores que os supostamente comuns, pois insere neles algo de sobrehumano, monstruoso. E Battisti sofre seriamente com essa imagem, pois isso implica em repressão psicológica constante ao mesmo dentro da cela, perseguição frente a qualquer movimentação dos detentos.

Recentemente, por exemplo, houve uma mobilização carcerária - greve de fome - na PF (pacífica e até passiva), na qual Cesare não se envolveu por discordar das pautas. Todavia a repressão caiu justamente sobre ele, que foi tido como mentor do processo: teve suas visitas da semana canceladas, não recebeu as cartas nem os livros que lhe enviados. Pior que isso, como punição geral, a comida (lanche, almoço e janta fornecidos pela carceragem) reduziu drasticamente sua quantidade a todos os detentos, de modo que mesmo Battisti, que não come muito, tem reclamado de estar sentindo fome. É a repressão política colocada pela PF em um país que afirma estar avançando significativamente nos direitos humanos.

Em uma recente visita a Cesare presenciamos um fato pra lá de estranho, pra não dizer revoltante. Ele sempre leva consigo uma folhinha com anotações que faz durante a semana, das coisas que quer saber sobre o processo, de sugestões de livros que ele quer ler, de mensagens a enviar para amigos e parentes, de coisas que fica pensando a semana toda na prisão. Em todo este tempo em que ele esteve detido essas folhas eram tranquilamente levadas e não havia problema algum, sem nenhuma advertência. Todavia, surpreendentemente nesta visita, enquanto ele lia seus recados, três agentes do cárcere da PF interromperam a visita por instantes arrancando o papel de sua mão gritando com ele informando que não será tolerada nenhuma irregularidade cometida, que ele fique esperto. Logo após adentraram a sala onde estávamos e, educadamente, informaram que Cesare havia descumprido os procedimentos do local e nos pediram pra informar quando esta ou qualquer outra irregularidade ocorresse. Uma ação simples, mas de tamanha violência e intimidação que nos deram o tom que tem ocorrido com Césare na prisão. Ele, muito irritado, tem muita vontade de que essas atitudes sejam denunciadas, que essa estrutura do cárcere brasileiro venha a público. Não é sem razão...

Cesare Battisti é uma daquelas pessoas que estão vivendo atualmente, em sua completude, os resultados diretos da luta empreendida por aquelas pessoas da chamada "Geração de 68", um período marcado por intensas lutas, grande contestação, libertação e revoltas - resultando em grandes progressos e avanços. Mas também por uma dura repressão, que segue até hoje - como o próprio caso do Cesare comprova. Como afirmou Fred Vargas sobre as más imagens construídas sobre Cesare, "Battisti virou primeiro um estrangeiro, depois um terrorista, depois um assassino, depois um monstro." Mas, na realidade, ele sempre foi um militante que, mesmo em sua "Fuga sem fim", jamais parou de lutar, de denunciar as atrocidades cometidas nos anos de chumbo: seja com seus romances, artigos jornalísticos, trabalhos comunitários, e atividades com outros movimentos sociais na França, México e recentemente no Brasil.

Poderíamos entender essa situação como uma disputa anacrônica pertencente a grupos que até hoje acertam contas sobre um passado distante. Mas, ao que parece, é justamente na disputa destas imagens sobre o passado que está colocado um dos principais debates sobre o presente e futuro: se os/as compas dos anos de chumbo forem categorizadas/os como terroristas sanguinários/as, nossa geração de lutas inscrever-se-á no mesmo caminho, e receberá o mesmo tratamento. Fica sugerido, em oposição, que o caminho de recolocar na história presente o significado destas lutas e suas conquistas abrirá caminhos de avanços às gerações passadas e às nossas. Seja qual for o fim desta história, só a união e solidariedade nos restam. Se não por nós, pelos nossos destinos.

Paique - paique em riseup.net